A Alquimia do Roubo

Narrativa Cinestésica sobre a Mulher

5/11/20263 min ler

Duas das minhas pinturas foram roubadas, duas pequenas representações da mulher no seu processo menstrual, sim, há muito a processar aqui mas tentarei ser breve.

Estávamos em 2025 e eu tinha organizado uma pequena exposição coletiva num café local, o conteúdo eram desenhos, pinturas, esculturas e outras experiências de vários artistas que tinham participado nos nossos encontros criativos desse ano. Estas eram as pinturas:

Esta é uma história sobre a mulher, que estará presente no ARTIS 2026 como parte da Exposição Colectiva Resistir.

O Útero é uma escultura em cerâmica vidrada, fruto da alquimia da minha dor menstrual. quando, contorcendo-me de dor me permiti criar, apesar de apenas conseguir pensar no meu ventre, aceitei o que tinha para dar e o foco que me era possível. a dor atenuou no processo da criação.

Em exposição, o Útero contém ovos de chocolate coloridos que os visitantes podem comer, o ovo aqui como um símbolo de valor, fertilidade e potencial.

Moro numa aldeia, e por aqui sabe-se tudo, quando não se sabe projeta-se e constou-me que foram roubadas por mulheres ofendidas pela minha expressão.

Se por um lado me acende que a minha arte tenha um impacto visceral o suficiente para justificar o roubo, por outro, entristece-me ver como a expressão nua e crua, catártica e poderosa da mulher é rejeitada pela própria mulher.

Citando Martin Luther King Jr.:

"O ódio não elimina o ódio, apenas o amor pode fazer isso.”

Assim, aqui fica um poema, para todas as mulheres do meu tempo, para as que estiveram antes, as que estão agora e as que virão depois:

Amo-te, amo-te até ao mais profundo de ti.

Tudo o que és é igualmente belo e necessário ao meu olhar.

Sim, quando tens graça e beleza,

quando te dás com leveza,

mas, oh! Meu amor,

amo o que tens de negro e profundo

amo o que não mostras ao mundo,

como às profundezas do mar

e às ondas e ondas a rebentar.

Amo quando choras, amo quando gritas,

nas tuas forças, fraquezas e fitas.

eu amo-te.

Amo-te nos olhos curiosos da minha filha,

amo-te no cheiro da minha mãe, amo-te na pele enrugada da minha avó, no riso das minhas amigas, amo-te no espelho, amo-te quando nos cruzamos na rua,

amo a tua alegria, a tua tristeza, a tua exaltação, raiva e incerteza

quando és insegura, mostras amargura ou trazes armas em riste,

amo o teu pensamento,

como cuidas do mundo e nos levas para a frente

escrevendo com sangue

histórias no ventre.

Tu não és só a tua harmonia, graça ou beleza

nem o que pões no mundo ou na mesa,

tu és um ser completo

e eu amo-te em todas as expressões de ti.

A pintura Sangue surge como uma resposta ao desamor que tantas vezes a mulher mostra à sua natureza, esta mulher celebra, vibra, expressa livremente a sua nudez e o seu sangue, ela tem orgulho de quem é, ela tem amor a todas as partes de si. (Pintura em aguarelas, tinta-da-china, pastel seco e pastel de óleo sobre papel Canson, 300g/m2, livre de ácido.)

© Molinar Faísca 2026