
A Viagem da Tartaruga
Mar Molinar Faísca
4/24/2026
Ao terceiro dia recebi um telefonema e voei para o hospital, quando cheguei ela estava sozinha.
Agarrou-me na mão e deu-me um beijinho, devolvi também dois beijinhos na mão dela.
- Estou muito cansada. - Insistia com a pouca força que tinha. Pediu um comprimido para relaxar à enfermeira, que parou na cama dela para medir pulsações, mas ela disse que ainda não podia dar-lho.
- Queres que te deixe descansar? - Perguntei. Disse que sim e então sentei-me do lado de fora da sala. Passado um pouco passou outra senhora com o lanche e ela voltou a pedir algo para relaxar. Estava muito ansiosa. Voltei a entrar:
- "Precisas de relaxar, queres que te faça um relaxamento do yoga?" - Concordou, eu puxei uma cadeira e agarrei-lhe na mão, a luz do sol, indireta, via-se pela janela.
Vamos fechar os olhos. Estamos leves, leves como uma pena, uma pena leve que sobe e circula no ar, leve e solta. Todo o nosso corpo relaxa, estamos completamente relaxados, leves e soltos. Leves e soltos como o ar que nos rodeia, tão leves e soltos como a brisa que nos leva, somos agora uma brisa fresca e leve e vamos sair daqui pela janela, subimos bem alto e estamos altos, leves e observamos tudo, as casas, as árvores, passamos por cima da cidade em direcção ao oceano. Vemos agora o oceano imenso, todo o horizonte de azul profundo, observamos o reflexo do sol nas águas e essa luz linda, linda do mar, atravessamos o céu por cima do oceano, em direcção ao sol centramo-nos na luz do sol e vamos entrar no sol. Entramos no sol e estamos completamente envoltos em luz, somos uma estrela luminosa, quente e serena, relaxada em paz.
Ela tinha adormecido, murmurei baixinho apenas mmm mmm, para que o som da minha voz não desaparecesse de repente.
Passado um bocado acordou, havia barulho à nossa volta e ela estava inquieta.
Chamou-me e pediu: "Fala comigo suave.” Fiz-lhe outro relaxamento:
Fechamos os olhos e relaxamos, relaxamos completamente, todo o nosso corpo relaxa e imaginamos uma luz verde rodear o nosso corpo. Estamos completamente envoltos numa luz verde esmeralda, somos esta luz, luz fértil, nutritiva, rica em paz e serenidade. Somos esta luz e vamos observar o mundo à nossa volta, para lá das casas, para lá da cidade, para lá da praia, observamos uma tartaruga linda, verdinha, que atravessa o oceano enorme, determinada. Atravessa-o sentido as correntes, suavemente e com leveza, atravessa o oceano para ir por os ovos numa praia distante. Observamos enquanto ela nada numa imensidão azul, azul negro na noite, azul turquesa no dia, noites e dias desliza pelas águas serena até chegar à praia. Observamos enquanto ela deixa os seus ovos confiante e se faz novamente ao mar.
Enquanto nada, ora vem à superfície com as ondas, ora mergulha. Observamos com atenção enquanto ela vai até ao fundo do mar, a tartaruga atravessa o azul profundo do oceano, passa pelos peixes pequenos e grandes, pelas algas, pelas estrelas do mar pelos corais, e enquanto nada, perfeitamente envolvida e integrada na água, vai passando pelas suas cores, azul turquesa leve e vibrante, verde esmeralda transformador, ao entrar no azul profundo, deixa de sentir as patas e a carapaça e sente-se diluir na água do oceano, consciente, segura e serena, a tartaruga é todo o oceano, ela sente as suas águas, as suas praias, as suas ondas e marés, enorme, profunda, imensa e continua a expandir-se. Parte de si evapora com o calor do sol e faz-se ar e estende-se pela atmosfera abraçando o planeta. Ela é enorme e imensa enquanto abraça o planeta, ela é todo o planeta, somos o planeta e sentimo-nos em paz. Somos paz, somos paz. Perdoámos tudo o que precisávamos de perdoar. Somos perdão. Somos amor. Somos tanto amor. Somos luz que se expande em todas as direções.
Parecia novamente ter adormecido.
Fiquei a murmurar mmm mmm, num embalo, enquanto lhe dava a mão e olhava pela janela.
A pele dela apenas trazia luz castanha, um contraste enorme com a luz azul que eu via então na pele do meu filho bebé e a luz arco-íris da minha pele. Olhei com atenção à procura de qualquer outra cor, à procura do verde que me lembrava de lhe ver quando era mais nova, mas já não estava lá.
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A minha mãe tinha uma paixão por tartarugas. Achava-as fofas e admirava como um animal tão calmo, lento e inofensivo podia fazer-se ao oceano sem medo e atravessar longas distâncias para deixar os seus ovos na praia sem qualquer hesitação.
As tartarugas chegavam até ela de todo o mundo, em mil formas, expressões e materiais pela mão dos que a conheciam. E ela, sorria derretida, admirava e gargalhava como uma criança sempre que via uma nova tartaruga, dando ao mundo a sua inocência uma e outra vez.
Quando partiu ficaram às centenas, cuidadosamente colocadas em expositores iluminados lá em casa. Limpei-lhes o pó algumas vezes e lembrei-a tantas outras. Depois, veio a Rosa, com os mesmos sons e exclamações de alegria ao ver coisas fofas, bonitas e brilhantes. Via as tartarugas e queria ver e brincar com todas elas e o prazer com que o fazia criou pontes em mim, uma e outra vez. Talvez tivessem brincado juntas se se tivessem conhecido.
Nesta pintura estamos as três, a minha filha, o espírito da minha mãe e eu, a minha energia, a minha água que dança em espirais entre as duas. Talvez sejamos, as três, apenas mais uma pirueta da matéria no tempo, mas no eterno presente em que vivemos temos tanto, tanto amor.



