O que é afinal o Desenho Intuitivo?

A minha jornada com a mão não dominante

ESTÚDIO

2/6/20264 min ler

Como Tudo Começou: Na Livraria Espiral

Por essa altura circulava por Lisboa, era tão diferente a minha cidade então, era calmo andar a pé e fazia sentido ir da Sé à Baixa e voltar, subir a Morais Soares a entrar nas lojas todas e subir a pé do Marquês ao Nimas depois de comer uma arrufada no Pão Doce. Ou talvez eu apenas tivesse outra percepção do tempo e do valor de me deslocar com calma e tempo para o pensamento.

A Livraria Espiral na Estefânia era um dos meus locais de eleição, encontram-se livros que não há em mais lado nenhum, num caos organizado que pede atenção para explorar, recomendo a quem gosta de encontrar raridades, autores e artistas nacionais que dificilmente se encontram em mais lado nenhum, traduções independentes de edições de culto, teologia, oculto e o mais que se possa entrelaçar aí.

Drawing as a Sacred Activity de Hesther Williams, estava sozinho entre tantas lombadas de peças únicas, chamou-me a atenção primeiro pelo desaforo de agora tudo ser feito sagrado, algo com que talvez me alinhe mais agora, afinal o que é que não é sagrado agora que liberalizámos a sacramentação? Propostas de exploração do subconsciente através do desenho? Tinha de experimentar!

Nesse ano o livro andou comigo para todo o lado, li e re-li, fiz os exercícios vezes sem conta, nesse namoro comigo mesma próprio da adolescência. A descobrir camadas na minha psique. No ano anterior tinha trazido de Florença um poster da pintura de William-Adolphe Bouguereau, O Cupido e a Psique como Crianças - O Primeiro Beijo. Ora este não era o primeiro beijo que eu Cupido dava na minha Psique mas sem dúvida era um beijo apaixonado!

A mentora e a pandemia.

Depois de muitas outras leituras sobre o tema, este livro manteve-se na minha cabeceira, como um livro de receitas mas usado na organização de novelos emocionais e mentais, algo que por alguma razão tive tendência para coleccionar. Uma ferramenta de auto-responsabilidade, algo que sempre me pareceu um bom princípio. Quando em 2020, fiquei em casa como tantos, dediquei-me a aprofundar sobre os meus mentores, aquelas pessoas que até aí me tinham inspirado e ensinado coisas que considero valiosas (um dia destes escrevo aqui sobre isto) aí, lembrei-me de procurar online pela Hesther. Estaria viva? Teria escrito outro livro? Como era a arte dela além do que eu tinha visto naquela referência?

Descobri que não só estava viva como era pro-ativa na partilha do seu conhecimento e juntei-me a ela nos seus cursos de desenho online. Tal coisa, até aí não me tinha passado pela cabeça, se não tivesse em tão alta conta o seu livro dificilmente teria experimentado algo assim, diria até que é absurdo entrar numa video chamada para desenhar em grupo. Mas foi diferente do que eu imaginaria, todas as semanas nos encontrávamos virtualmente, alinhávamos a nossa mente, desenhávamos e partilhávamos as nossas revelações. Senti-me vista e ouvida na minha exploração do meu mundo interior. Sentia e ouvia o mundo dos outros expandir o meu em cada chamada e o universo cresceu.

A Hesther é alguém que dá voz aos outros e isso, uma vez mais inspirou-me.

Explorações Pessoais e o valor do desenho

As técnicas que aprendi serviram ao longo dos anos como lentes de descoberta de mim mesma e do mundo onde vivo, ferramentas de processamento emocional em momentos difíceis e fermento criativo para a minha prática artística.

Bom demais para não se partilhar, quem me conhece provavelmente já me ouviu em algum momento falar apaixonadamente do desenho com a mão não dominante. Como tudo a que nos dedicamos com paixão fui evoluindo e crescendo nesta prática, juntei-lhe as técnicas do yoga que pratico e criei as minhas próprias viagens com o desenho, a que prefiro chamar intuitivo porque nem sempre uso só a mão não dominante e porque o que distingue estas práticas é a componente expontânea, não racional, a que tentamos aceder.

Comecei por partilhar estes exercícios em retiros de yoga, onde é fácil e expectável a profundidade na introspecção mas onde, até agora, mais me surpreendeu a aplicação destas técnicas foi nas aulas de primeiro ciclo nas escolas públicas, onde durante dois anos tive a oportunidade de introduzir estes exercícios. Aí onde geralmente há caos e confusão, vi as crianças descobrirem e mostrarem o seu mundo interior e apreciarem serem vistas e ouvidas na história que trazem consigo.

Mais recentemente ao apresentar estes exercícios em contexto terapêutico descobri que esta pode ser também uma ferramenta de canalização, mas como este é um tema complexo, terei de o deixar para outro dia.

Com isto será redundante acrescentar como valorizo a prática do Desenho Intuitivo e por esta altura talvez estejas com curiosidade de experimentar, se for o caso junta-te à minha newsletter para saberes quando organizo a próxima atividade de desenho.

Entretanto deixo-te aqui mais algumas referências sobre o assunto:

The Wiley Book Handbook for Art Therapy, David Gussak, Marcia Rosal

The Power of Your Other Hand, Lucia Cappachione

Até breve,

Mariana

PS: Escrito integralmente por uma pessoa real, por vezes com, outras sem o AO90, conforme me apeteceu.