Elos
Da ilustração à poesia
Mar Molinar Faísca
6/14/20263 min ler


Esta é a história de Elos, é sobre o que me eleva e a energia com que gosto de brincar. Pinturas que viraram camisolas, acordaram perguntas que se transformaram em poemas. Poemas que se juntaram num livro que tem andado por aí a convidar miúdos e graúdos a explorar a criatividade e a imaginação.
Tinha acabado a série Elos, um conjunto de representações de estados físicos, emocionais, mentais e espirituais em pinturas minimalistas feitas em aguarela e tinta-da-china. Estava contente com algumas das representações e decidi fazer umas t-shirts para mim e para os meus filhos, assim, no aniversário da minha filha eu levava o meu modelo vestido.
Não estava à espera que a imagem causasse o impacto que causou nas crianças. "O que é isso?" perguntaram. Surpreendida e divertida com a pergunta respondi: Não sei, o que é que achas que pode ser?
É um planeta? É um menino? É uma bola? É um menino a jogar à bola? É um menino a olhar para um planeta? É uma poça de água? É um menino sem barriga? É um menino sem coração. O coração saiu e está ali em cima azul. É um menino com um pensamento calmo!
As respostas/pergunta atropelavam-se umas por cima das outras no que agora era um semi circulo de crianças à minha volta. Limitei-me a sorrir e a encolher os ombros num gesto que abraça todas as possibilidades. Durante a festa voltaram, as mesmas crianças e outras com novas possibilidades e perspectivas para o que estariam a ver.
Saí dali também eu inspirada, a imaginação das crianças é incrível, pensei!
Semanas mais tarde, estava eu com mesma t-shirt quando a minha cunhada pergunta, olhando para a imagem, o que é isso?
Os meus olhos devem ter brilhado mais naquele momento, não sei, respondi, o que é que vês?
"Um macaco? Uma criança? Isto parecem pernas... agora isto aqui, não sei, um planeta? Um alien?"
A observação abriu uma conversa interessante sobre a imaginação e a projecção que fazemos na imagem abstracta e eu, percebi que não era só a imaginação das crianças que é incrível mas que a criatividade surge quando não há respostas fechadas e conclusivas disponíveis, o que nos dias que correm, com "todas" as respostas a dois cliques de distância, não assim tão comum.
Assim surgiu o primeiro poema, chamei-lhe "Upa", porque a criatividade nos eleva e expande.
Depois deste, os outros fluíram como a água e num instante tinha uma selecção de imagens e poemas, impressa em papel A4 que levava comigo para todo o lado à espera de oportunidades de partilha e descoberta. Na altura estava a dar aulas de yoga e desenho intuitivo para crianças e comecei a levar as minhas cópias e a fazer círculos de interpretação das imagens e leitura dos poemas.
O envolvimento e entusiasmo das crianças tem sido sempre delicioso de testemunhar, os seus olhos brilham quando percebem que estão a participar numa conversa livre de resposta errada, a sua confiança vai crescendo quando sentem a aceitação das suas hipóteses. As histórias pessoais que têm para contar, entram por pontes insuspeitas e, quando percebem que nem todos vemos o mesmo ao olhar para a mesma imagem, tentam ver pelo olhos dos outros
quando estes trazem novas possibilidades, geram um verdadeiro círculo de partilha, onde nos vemos, a nós próprios e aos outros de forma muito especial.






